Procrastinação Infinita de um Fim Inevitável






Desde que marquei o encontro, eu já sabia que esse deveria ser o último, mais uma vez.
E pensei que o fim, talvez, pudesse ser tão bonito quanto o começo.
Por que não fazer desse último momento juntos, uma linda lembrança?! Seria isso possível? Decidi que tentaria.
Na ensolarada tarde de domingo, no inverno, comprei uma garrafa de vinho. Para cozinhar e - por que não - para beber sozinha. Ascendi um incenso. Escolhi ouvir Marisa Monte.
É curioso descobrir quanto prazer pode-se tirar de coisas tão simples como cozinhar sozinha em casa.
Enquanto fatiava as cebolas, chorando, pensei se lágrimas como essas me escapariam quando dissesse a ele que acabou. Como é que diria aquilo, sentindo tudo isso aqui dentro?!
Por mais que se ame uma pessoa, quando você sabe que algo não dá certo, quando não confia nela nem acredita no futuro da relação, o fim é inevitável.
Mas eu estava me sentindo especialmente bonita. E estranhamente tranquila. Tinha tomado um longo banho, deslizado o hidratante por cada parte do meu corpo e ainda arriscado algumas gotas do perfume de lírios...
Escolhi o vestido de seda e soube que estava exagerando. Toda despedida é assim, a gente pensa em usar todas as "armas" possíveis pra tentar fazê-lo repensar. Ou seja: truque de sedução barato. Nem é necessário, mas eu gosto.
Chegando no apartamento dele, toco a campainha 2 vezes e nada. Ligo no celular e ouço-o tocar do outro lado da porta. O que será que houve? Toco mais uma vez e finalmente a porta é aberta. Eu o beijo no rosto, primeiro ato falho. Sei que ele estranhou, das outras vezes fiz a mesma coisa, que burra. Não dizemos nada e dois outros beijos se seguem, rápidos e estalados. Selinhos.

"Cê tá bonitona, hoje. Que exagero, hein..."
" Cê notou?! É que vou daqui pro trabalho amanhã, né."
" Humm, seu chefe nunca te pediu em casamento, não?
"Bobo..."

Então vem o papo com o irmão, o jantar, as amenidades, o musical... Vem tudo antes do que tem que ser. Ele toca no assunto. Eu digo pra deixarmos para depois do filme.
Enquanto o tempo passa, todo o nosso tempo perpassa meus pensamentos. O cérebro discutindo ferrenhamente com os sentimentos e os instintos. Nem briga só com o coração, mas com o sexo, com a pele, com a boca... Meu corpo todo está em guerra.
"A gente tá voltando pro mesmo lugar de antes; lugar nenhum"
"Nossa história, apesar de ter havido sofrimento, foi uma história linda. Corremos o risco de concorrer com a gente mesmo."
"Eu não quero sofrer tudo aquilo de novo"
"Só se a gente tentar ser apenas amigos"
"Já tentamos, não dá. Lembra?"
"E se eu te botar pra namorar um amigo meu?"
"Vou fingir que não escutei isso. Primeiro: não sou mercadoria. Segundo: Nunca namoraria nenhum amigo seu. Terceiro: Você não se importa???"
"Claro que me importo. Eu só finjo."
"Então pode parar"
"Bom, temos três opções..."

Nenhuma delas funcionaria e nós dois sabemos disso. Nós dois sabemos que cada encontro "como amigos" acaba depois da transa. Há dois anos é assim.
Como eu previa, ele não disse o que poderia nos salvar. Eu também não digo. Mais uma vez tenho certeza de que acabou. É aí que me viro e o beijo. E de repente, nada mais importa, somos tomados pelo frisson e o desejo, eu só quero que ele continue o que está fazendo e o aperto forte contra mim, como se com isso, pudesse me tornar parte dele, me costurar em sua pele... Sinto que vou morrer. Não digo que o amo. Isso não é coisa que se diga quando é a última vez. Nunca disse, aliás...
Depois, o carinho. Minha cabeça encaixa tão perfeita confortávelmente no ombro dele, que parecem peças de Lego. Duvido que haja outro ombro na medida certa para a minha cabeça. Penso no quanto eu sou boba, é claro que há.

"Então, é uma despedida, linda?"
"Acho que é sim. Mais uma despedida."
"..."
"Mas ainda temos amanhã de manhã..."
"Safada."

O despertador toca às 08:30. Ele me diz que a diarista chegou, está na cozinha, melhor ficarmos quietos. Me frustro. Ainda contava com o último adeus. Tomamos café e conversamos sobre Shakespeare. Ele fala de Antônio e Cleópatra, eu, do Sonho de uma Noite de Verão. Nós dois falamos de Romeu e Julieta. Está na hora de ir embora, olho para o relógio e digo:
"Vai ter de me devolver o dvd que tô deixando aqui, viu?"
"Não prefere ver junto?"
"Prefiro."

Nos beijamos e eu sigo em direção ao metrô. Coloco os fones de ouvido, me embalo ao som de "So Nice" e continuo sem saber de mais nada.

Comentários

  1. e aí nega o que veio depois disso?!?!!?

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  2. Tanta coisa, nega... hehe.
    Mais encontros e desencontros, um amor que só pode ser amizade, conversas, olhares...
    Tem pessoas que não vão sair nunca da nossa vida, daí temos que criar um lugar pra elas, diferente de tudo que já existia antes.
    Obrigada pela visita!
    Beeju

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