Na terceira pessoa

Foto by Henrique Fischer
Ela tenta não sentir, pra disfarçar. Diz que não está nem aí, com suavidade, ri da situação. Quando está sozinha admite para si mesma que queria que tudo fosse diferente. Mas duvida de seus próprios sentimentos e certezas. Detesta verdades absolutas. Já faz tempo que entendeu a ilusão na história do príncipe no cavalo branco. Já teve um príncipe, não gostou, mandou embora. E ficou feliz sozinha, sem preocupações, sem expectativas, sem ideias românticas na cabeça. Sem dor.
Às vezes pensa que o melhor é voltar para aquele tempo de solidão.  Se pergunta de que valem as mãos dadas, beijos, tesão, sexo incrível... Se tudo na verdade é nada. Quer saber qual o sentido da vida. Percebe que está nostálgica. Culpa da lua, obviamente. Tem crises de riso, gargalha com energia. E crises de choro durante a sessão de psicanálise.
Não quer mais falar, só ouvir. Não o de sempre, porque esse disco arranhado já está lhe dando nos nervos. Está cansada de se culpar: "pare de repetir os padrões". Tenta encontrar a individualidade do outro, se obriga a reconhecer que eles não são todos iguais.
Ela se pergunta se é isso que vai escolher. Seria o "devagar e sempre" que merece? Liberdade e persistência? Paciência, condescendência, coerência, indolência, ausência? Quantas rimas mais?!
Quanto sufocamento ainda? Sublimação. Tem que ter bom senso mesmo? Acha que ser adulta e ponderada é a coisa mais chata que tem.
Busca explicação na astrologia. Tem sol em aquário e lua em escorpião. Sabe que é uma drama queen. Mas sabe também que tudo tem limite e o seu próprio anda meio maluco.
Cada vez escreve coisas mais sem nexo. Sabe que precisa voltar para os manuscritos, porque até essa sua exposição voluntária pode piorar tudo.
Está cansada de tentar fazer o certo, sempre. Cheia de perseguir o ideal da mulher mais incrível.  
Se lembra que este era para ser um texto sobre o romantismo, com o título "vênus em peixes"... Se pergunta como é que veio parar nessa pseudo-reflexão triste da sua vida.
Decide que precisa sair pra dançar, porque só assim esquece todo o resto. Esquece essa vontade absurda de estar sempre com ele, colada, de carne, calor e sangue, costurados os dois juntos. Seguida do impulso de ficar sozinha, lendo seus livros da Young e vendo suas séries preferidas na TV. Seria isso bipolaridade?
Sabe que sua paciência está chegando ao fim. E a verdade é que nunca teve muita. De uma hora para a outra pode jogar tudo para o alto e sair desse mundo do "e se". Sabe também que a principal forma de perder é pressionando. Mas talvez não seja ela quem saia perdendo dessa vez. 
Aprendeu a duras penas que não pode apostar todas as fichas. E que sempre irá sobreviver a essas quedas.
Torce pelo melhor, ainda que não saiba nem o que é. 
E segue vivendo assim, solta.

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