Green Eyes




Chegou num dia desses qualquer, há muito tempo atrás, no meio dos livros infantis, usando um crachá de treinee, camiseta verde e calca jeans. O sorriso largo, com barba por fazer, olhos escandalosamente verdes e me deu um abraço com cheiro tão bom que até fechei os olhos pra sentir melhor.
Já veio com jeito de perigoso e o o sotaque carioca característico dos moços mais ameaçadores da minha paz... Em pouco tempo só se falava nele, outras tão atraídas quanto eu.
Primeiro me procurou, forjando curiosidade, se fazendo disponível, procurando aprender o trabalho. E tinha uma coisa de falar com as mãos na cintura da gente, rindo e soltando palavrões com displicência no meio da conversa, de forma que era impossível não ir se envolvendo cada vez mais. Depois fez o convite pra cerveja e bate-papo no happy hour, despretensiosamente, como se aquilo não prometesse nada.
Falava besteira com a mesma paixão que defendia suas convicções sérias e fazia o prestativo enchendo os copos prontamente, puxando cadeiras e coisas do tipo. A cada vez que eu olhava seus olhos verdes, uma linha de resistência se afrouxava dentro de mim. Sórdido, tirou a camisa com a desculpa de que fazia muito calor no Rio de Janeiro. Maquiavélico, pediu que eu a segurasse enquanto ia ao banheiro. Não pude evitar aproximá-la do meu rosto pra sentir aquele cheiro outra vez... O que eu estava fazendo???
De repente e, não sei bem como nem por que, estávamos sozinhos na noite carioca, sentados um ao lado do outro. Foi quando o assunto acabou assim, de súbito. Não foi preciso mais que um olhar e nos beijamos com uma voracidade assustadora e encaixe surpreendente. Não parecia um primeiro beijo, era como se já nos beijássemos desde sempre, como se nossas bocas e línguas já se entendessem há muito tempo.
Ali eu percebi que ia me perder naquele beijo, nos braços do perigo em forma de gente. 
Me cantou "telegrama" tocando violão, me disse coisas no ouvido, passou as mãos pelos meus cabelos. E me abraçou todo e cada dia, no trabalho, depois daquela noite. Eu já fantasiava bobagens românticas que logo fariam com que o medo aparecesse e acabasse com tudo.
Ele era de fato muito perigoso. Justamente como eu havia previsto. E, claro, não queria se envolver naquele momento. A gente podia se curtir e só. Mas como seria possível não me envolver, pelo amor de Deus?!! Só se não corresse sangue nas minhas veias ou eu já tivesse o coração de pedra que tenho agora...
Essa nem foi a pior parte. Tive minha dose diária dele, minha micro dose de green eyes, abraços cremosos e sorrisos junto com outras que vieram, até aquela que o levou de nós... Talvez para sempre.

Nunca me esqueço desses green eyes...

Comentários

  1. A parte do "coraçao de pedra foi a melhor"..rs Até parece, : )
    Adorei o texto, fico viajando imaginando a cena. Sempre dou muitas risadas.
    Parabéns.
    Stéfani
    Bjao.

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    Respostas
    1. É sim, amiga. Coração de pedra pra sempre agora... ahahahahaha
      Que bom que gostou!
      Beijão

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  2. Já eu, adorei 'braços do perigo em forma de gente'.
    Lindo, Samy. Como sempre.
    Beeju

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